O terreiro, a regência e os princípios

O número 28 na Rua da Primavera, numa antiga zona de caça da família real portuguesa, conhecida por Coutada Velha, na vila de Benavente, a 40 minutos de Lisboa, alberga a tradição dos Òrìsà (Orixá). O terreno, com 10.000m2, começou a ser preparado em 2006, num longo processo de sacralização dos espaços, processo essencial para a instalação de uma confraria religiosa, de uma egbé Òrìà – lé ÀṣẹSão parte do património religioso e destaque do Terreiro da Casa Branca da Sesmaria VelhaIlé Àṣẹ Ìyá Odò (Ìrandíran Ìyánásó Oká) —, o Ilé Èù, i.e., a Casa de Exú, o Ilé Fóribalẹ̀, o “barracão” de festas, o Ilé Ọ̀ṣun, a Casa de Oxum, o Ilé Ògún, a Casa de Ogum, o Omi-Adagun Ọ̀ṣun, o lago de Oxum, o pequeno vilarejo dos Orixá-Vodun, com o lago de Nàná, o bambuzal de Oyá, o ilé Igbalé, a casa dos Ancestrais, Orisun Omi Yèmọnjá, a Fonte de Iemanjá, e as inúmeras árvores consagradas.

[detalhes da decoração da Festa da Palha]

O terreiro tem por principal regência Oxum, deusa das águas doces e férteis, do amor, da feminilidade. Para além de Oxum, tem regência Oxóssi, o Orixá da providência alimentar, da caça, da fartura, da família, e divindade importante nos primórdios do Candomblé da Barroquinha. Além desses dois Orixás, acompanham nessa tarefa Oxoguian, jovem guerreiro, Senhor dos inhames e das revoluções; Oyá, deusa do vento, das tempestades, do rio Níger e da sensualidade ardente; e Ogum, Orixá da metalurgia, da agricultura, dos caminhos, da guerra e da tecnologia.


No Ilê Axé Iyá Odô – CPCY, regemos-nos pelo princípio de que embora o Candomblé seja uma herança africana, fundada por escravos e seus descendentes, na Bahia, é uma religião universal. A partir do momento em que cruzam o Atlântico, os cultos Orixás e Vodun, transformam-se, adaptam-se a uma nova realidade social e cultural. A abertura e a mudança, que deram origem ao Candomblé, fazem desta uma religião não mais de negros e crioulos. Mas, como se costuma dizer, “o Candomblé é para todos, mas nem todos são para o Candomblé“. E porquê? Em primeiro lugar porque participar do Candomblé é aceitar uma realidade religiosa e cultural onde o coletivo é mais importante do que o individual, ou seja, onde o propósito/o superior interesse da comunidade se sobrepõe à vontade individual. No Candomblé somos porque pertencemos, o “eu” existe porque existe o “nós”, e não o contrário. Ao se integrar na comunidade a pessoa passa a participar da hierarquia, da estratificação da comunidade, onde existem direitos e deveres, onde a antiguidade iniciática determina o acesso aos segredos. Assim, no Candomblé é o posto religioso, o cargo, que determina a posição na hierarquia, não o status do sujeito na sociedade para lá dos muros do terreiro que importa. É preciso aceitar que poderá nascer uma crise do ego se o sujeito não aceitar que por ser médico, advogado, professor, etc., poderá ser inferior na hierarquia do terreiro a uma pessoa que não sabe ler nem escrever, porque no Candomblé não se faz distinção de género, sexualidade, situação económica, origem étnica, nacionalidade, idade, ou outra, mas se respeita a posição na hierarquia. O Candomblé é uma religião de acolhimento, onde o abraço é fundamental para todos aqueles que chegam. Receber bem é o caminho para que a pessoa se sinta integrada na comunidade. A humildade é outro valor fundamental no Candomblé. Para aprender e crescer espiritualmente no Candomblé é preciso aceitar que tudo chega como tempo, que ninguém nascer ensinado, e que o aprendizado não pode ser acelerado, para tanto é preciso ser humilde, aceitar as tarefas e a posição do recém-chegado, do recém-iniciado, etc., ganhando o respeito dos mais velhos e aprendendo os passos fundamentais para que o se venha a tornar um bom “mais velho”, porque um aprendizado apressado é sinal de saber superficial.

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