SAUDAMOS ÈṢÙ SENHOR DA COMUNICAÇÃO.

  1. Ao longo da história do Candomblé e, bem assim, da história das religiões africanas e descendentes, o sacrifício animal configurou matéria de reserva e preconceito por parte dos mais variados viajantes europeus, missionários, comerciantes, colonos e senhores de escravos. No sacrifício animal residiu e reside uma grande parte da rejeição, sendo matéria de combate religioso por parte de novos movimentos cristãos, ditos neopentecostais. A dimensão estética e o quadro de valores terrenos – lembremos que as religiões do Golfo do Benim são religiões cujos sistemas rituais e de valores se baseiam em questões prática, v.g. a fertilidade das terras, das mulheres, a saúde, as colheitas, a justiça, a coletividade, et. al. – levaram os europeus a demonizar as divindades locais, cabendo a Èṣù o papel de “Diabo” na tradução da Bíblia de inglês para Yorùbá.
  2. No entanto, o sacrifício animal é uma das mais antigas práticas culturais, não se confinando ao continente africano e estando presente em inúmeros povos ao longo da história da humanidade.
  3. No quadro Ocidental, de matriz judaico-cristã, o sacrifício animal encontra-se presente por via do “cordeiro pascal” judaico (קרבן פסח), prescrito pela Torá. No quadro cristão, o cabrito – que em Portugal se consome assado – marca essa relação sacrificial pascal. Na cultura muçulmana, a Festa do Sacrifício (عيد الأضحى) é um dos momentos mais altos da vivência religião do povo de Alah, marcando o fim do Ramadão.
  4. Nas mais variadas culturas o sacrifício tem uma dimensão e um lugar especial, traduzindo um ato jurídico entre o sujeito e a(s) divindade(s), sendo, como referiu, classicamente, Marcel Mauss, uma relação assente no princípio da dádiva. Ou seja, o sacrifício – que etimologicamente significa tornar sagrado – representa o contrato material e simbólico entre a pessoa-crente e a entidade divina.É um contrato-promessa, um contrato-expectativa, em que o sujeito-ofertante ao sacrificar um animal no altar da divindade paga uma promessa e solicita novas dádivas, renovando um ciclo contratual em que se espera que a divindade recebendo o agradecimento se comprometa a responder à nova solicitação. Este imaginário ritual, esta praxis, não é um exclusivo das culturas pré-cristãs na Europa ou em África. Na realidade, este contrato está presente na relação entre os devotos e os santos do catolicismo popular por via dos ex-votos.
  5. Portanto, o animal sacrificado é tornado em objeto de comunicação entre a comunidade religiosa/sujeito-ofertante e a divindade, num ciclo permanente de favores pedidos e dádivas atribuídas. Podemos afirmar que o animal sacrificado é o elemento ordenador da sociedade, o que repõe a ordem e o equilíbrio social e natural, propiciando a presença das divindades e a sua boa-vontade.
  6. No Candomblé, em continuidade com as culturas Yorùbá, o animal sacrificado adquire uma dimensão, igualmente, de troca física, ou seja, a troca da sua vida em lugar da nossa:
    lati gba orí ẹran gbà daju orí mi – “aceite a cabeça do animal comprometendo-se a deixar a minha”.
  7. O animal sacrificado, na sua dimensão de objeto comunicante, i.e., de ser usado como meio de comunicação entre a comunidade humana e as divindades, torna-se sagrado.É por tal razão que os animais utilizados nos rituais do Candomblé são lavados, muitas vezes cobertos por panos decorativos ou totalmente tapados para a caminhada que fazem até ao lugar de sacrifício, uma via sacra, ocasião em que se tornam sagrados, estando assim velados. O ato de velar os animais, de os cobrir dos olhos profanos, encontra coincidência no provérbio yorùbá: “Biri-biri bò wọn lójú, Ọgbẹri nko mo màrìwò” – “escuridão cobre os seus olhos, o não-iniciado não pode conhecer os segredos do mariô” (folha do dendezeiro, metáfora para culto).
  8. Chegamos, portanto, a um aspeto importante na nossa cultura religiosa: a mesa. A oferenda alimentar, ou seja, a gastronomia própria do Candomblé, assim como os sacrifícios animais (que seguem uma prescrição específica quanto à escolha e quanto à prática sacrificial), fazem parte da mesa, ou seja, da comida que será partilhada pela comunidade. Quer isto dizer que o animal sacrificado não é um animal que após morto será descartado – pelo contrário, trata-se de carne sagrada, manualmente sacrificada, com reverência e zelo pelo animal, ao entoar de cânticos sagrados que acalmam o animal e invocam a presença da energia das divindades (semelhante, assim, à carne halal), que após o ritual será preparada para consumo por todos, numa comunhão entre a comunidade religiosa e as divindades.
  9. Assim, o animal sacrificado não é meramente abatido. Na verdade, ele não é abatido sequer, ele é transformado, de modo manual, tradicional, zeloso e religioso, em objeto de comunicação com a divindade, e em gastronomia, que será consumida pela comunidade numa comunhão entre os seus membros e destes com as divindades.
  10. Por fim, importa lembrar que o sacrifício animal encontra-se protegido legalmente, em Portugal, nos termos do artigo 26.º da Lei 16/2001, Lei da Liberdade Religiosa.

    WE SALUTE ÈṢÙ LORD OF COMMUNICATION.

    1. Throughout the history of Candomblé, as well as the history of African religions and their descendants, animal sacrifice has been the subject of reservation and prejudice on the part of a wide variety of European travelers, missionaries, traders, colonists, and slave owners. Much of the rejection of animal sacrifice was and still is a matter of religious combat on the part of new Christian movements, known as Neo-Pentecostals. The aesthetic dimension and the earthly value framework – let us remember that the religions of the Gulf of Benin are religions whose ritual and value systems are based on practical issues, e.g., the fertility of the land, of women, health, crops, justice, collectivity, et. al. – led Europeans to demonize the local deities, with Èṣù playing the role of “Devil” in the translation of the Bible from English to Yorùbá.
    2. However, animal sacrifice is one of the oldest cultural practices, not confined to the African continent and present in countless peoples throughout the history of humanity.
    3. In the Western framework, of Judeo-Christian matrix, animal sacrifice is present via the Jewish “paschal lamb” (קרבן פסח), prescribed by the Torah. In the Christian framework, the kid – which in Portugal is consumed roasted – marks this sacrificial Paschal relationship. In Muslim culture, the Feast of Sacrifice (عيد الأضحى) is one of the highest moments of the religious experience of the people of Allah, marking the end of Ramadan.
    4. In the most diverse cultures, the sacrifice has a special dimension and place, translating a legal action between the subject and the deity(ies), being, as Marcel Mauss classically mentioned, a relationship based on the principle of gift. In other words, the sacrifice – which etymologically means to make sacred – represents the material and symbolic contract between the believer and the divine entity. It is a contract-promise, a contract-expectation, in which the offeror, when sacrificing an animal on the altar of the divinity, pays a promise and requests new gifts, renewing a contractual cycle in which it is expected that the divinity receiving the thanks commits itself to respond to the new request. This ritual imaginary, this praxis, is not exclusive to pre-Christian cultures in Europe or Africa. In fact, this contract is present in the relationship between the devotees and the saints of popular Catholicism through ex-votos.
    5. Therefore, the sacrificed animal becomes an object of communication between the religious community/offeror and the divinity, in a permanent cycle of requested favors and attributed gifts. We may state that the sacrificed animal is the ordering element of society, which restores order and social and natural equilibrium, propitiating the presence of the divinities and their goodwill.
    6. In Candomblé, in continuity with Yorùbá cultures, the sacrificed animal acquires a dimension, equally, of physical exchange, that is, the exchange of its life in place of ours: lati gba orí ẹran gbà daju orí mi – “accept the animal’s head by committing to leave mine”.
    7. The sacrificed animal, in its dimension of communicating object, i.e., of being used as a means of communication between the human community and the divinities, becomes sacred. It is for this reason that the animals used in Candomblé rituals are washed, often covered by decorative cloths or totally covered for the walk they make to the place of sacrifice, a via sacra, occasion on which they become sacred, thus being veiled. The act of veiling the animals, of covering them from profane eyes, finds coincidence in the Yorùbá proverb: “Biri-biri bò wọn lójú, Ọgbẹri nko mo màrìwò” – “darkness covers their eyes, the uninitiated cannot know the secrets of the mariô” (palm leaf, metaphor for worship).
    8. We thus come to an important aspect in our religious culture: the table. The food offering, i.e., the gastronomy proper to Candomblé, as well as the animal sacrifices (which follow a specific prescription regarding the choice and the sacrificial practice), is part of the table, i.e., the food that will be shared by the community. This means that the sacrificed animal is not an animal that after death will be discarded – on the contrary, it is sacred meat, manually sacrificed, with reverence and zeal for the animal, to the intoning of sacred chants that calm the animal and invoke the presence of the energy of the divinities (thus similar to halal meat), which after the ritual will be prepared for consumption by all, in communion between the religious community and the divinities.
    9. Thus, the sacrificed animal is not merely slaughtered. In fact, it is not even slaughtered, it is transformed, in a manual, traditional, zealous, and religious way, into an object of communication with the divinity, and into gastronomy, which will be consumed by the community in communion among its members and between them and the divinities.
    10. Finally, it is important to remember that animal sacrifice is legally protected in Portugal, under the terms of article 26 of Law 16/2001, Law of Religious Freedom.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Back to Top
error: Content is protected !!