Na CPCY reconhecemos e valorizamos o legado africano do Candomblé, defendendo a preservação da memória histórica e o contributo para as gerações vindouras. Não obstante, diante do massivo movimento designado por reafricanização, é nossa doutrina que o mesmo apresenta contornos contraproducentes, ao desconsiderar o historial da colonização, descolonização, urbanização, presença e avanço do Islã(o) desde o séc. XV, presença das missões católicas, protestantes e, presentemente, neopentecostais, e os seus efeitos nos padrões cosmológicos e rituais. Consideramos um lapso de julgamento supor uma intemporalidade africana, interpretação que perpetua o racismo ocidental que designava os povos africanos como «sem história».

Ora, se pelo contrário, a África e, ao caso, o Golfo do Benim, foi palco de inúmeros acontecimentos históricos e religiosos estruturantes, restruturantes e desestruturantes daquelas sociedades e culturas, a procura de uma «autenticidade» configura-se um caminho penoso, uma procura inglória, uma vez que nem a autenticidade nem a «pureza» são conceitos próprios daquela geografia, mas antes um produto do imaginário antropológico e cultural dos terreiros de Candomblé.

Por isso, é nossa doutrina que a reafricanização possível é a empreendida por Bámgbóṣé e outras figuras da época e posteriores: a da recuperação de saberes e de elementos rituais e estéticos que não sejam discordantes com o legado próprio do Candomblé, isto é, que não coloquem em causa — a partir de ideias da África atual — o património ético, identitário e ritual que configurou o Candomblé.

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