Vivência Religiosa

A vivência religiosa no Candomblé é marcada por etapas rituais que vão introduzindo a pessoa na comunidade e em comunhão consigo mesma, com o seu “eu” primordial, ligado à essência do seu Orixá genitor. A participação ativa na vida da sociedade religiosa que é o terreiro depende da etapa iniciatória. O Candomblé, como outras religiões africanas e de origem africana, é iniciático. Ou seja, para se ser membro efetivo da comunidade religiosa é preciso iniciar-se na religião, adquirir uma identidade religiosa, e celebrar a união com a divindade à qual se está consagrado. A pertença à comunidade religiosa, então, começa, geralmente, com o banho das folhas que purificam, com o primeiro fio de contas (eleke) e depois com o borio ritual de preparar a cabeça (morada da divindade, vasilha da identidade humana) para a vida religiosa, para que a pessoa reencontre a sua essência divina, a sua cabeça interior e espiritual. Após essa etapa ou, caso seja designo das divindades ou desejo da pessoa, saltando essa etapa, ocorrerá a feitura ou iniciação, momento em que a cabeça é novamente preparada, agora com rituais mais profundos, para a celebração do vínculo com o Orixá, um vínculo que só se quebra com a morte, altura em que o mesmo se extinguirá, ritualmente. A iniciação no Candomblé demora de 14 a 21 dias ininterruptos(1), durante os quais ocorrem inúmeros rituais de sacralização do corpo, do espírito e a constituição do altar individual do iniciado. Como se trata de um momento de verdadeiro renascimento espiritual, a iniciação no Candomblé comporta a raspagem das cabeças, momento em que a pessoa se renova e renasce com uma nova identidade espiritual (2). Após a iniciação, a pessoa agora renascida irá cumprir as obrigações de 1, 3, 5 e 7 anos, momentos rituais em que renova o seu vínculos, reforça os seus votos religiosos, sendo que na celebração dos 7 anos de iniciado atingirá a maioridade, altura em que passa a ser ebomi (egbon mi), isto é, irmã(o) mais velha(o). É nesta altura que, e caso tenha nascido com esse caminho/vocação/missão, receberá autorização para abrir o seu próprio terreiro, recebendo os direitos religiosos das mães do(a) seu/sua zelador(a) (3).

HIERARQUIA / O Candomblé é uma religião extremamente hierarquizada lembrando uma corte muito formalmente estabelecida, onde o status diz respeito ao tempo de iniciação e aos postos religiosos ocupados. A obtenção de um cargo religioso é um sinal de distinção que não deve acarretar vaidade, mas antes um forte sentido de responsabilidade, pois um terreiro tem inúmeras tarefas que devem ser cumpridas e recém-chegados que precisam ser ensinados, aprendendo de forma humilde, tal como o cargo não deve acarretar prepotência nem autoritarismo.

O DIA-A-DIA DO TERREIRO / O terreiro é um espaço onde existem sempre tarefas a serem cumpridas, desde a limpeza à manutenção dos jardins, passando pelos animais a serem cuidados, ao terreiro a ser limpo e lugares a serem varridos. As tarefas cabem a todos, porque o terreiro é o lugar onde são cultuados os Orixás, sendo de todos, para todos e responsabilidade de todos.

O AXÉ E AS OFERENDAS / O Axé é a energia-vital, a energia primordial do universo que habita em todos os seres e lugares, em maior ou menor grau. Trata-se de uma energia propulsora e finita, que aparece de diferentes formas e se encontra sacralizada em determinados lugares como rios, matas, ou elementos como o ferro e as pedras. Por isso o axé é a energia das divindades. A parcela de energia que existe no terreiro precisa ser propiciada, razão pela qual são realizadas as oferendas rituais, que reativam a energia dos lugares sacralizados do terreiro e servem de moeda de troca com os Orixás, a forma como se buscam as dádivas dos deuses.


(1) só em casos muito excepcionais é que a iniciação poderá ocorrer por um período inferior de tempo. No Ilé Àṣẹ Ìyá Odò – CPCY considera-se que as iniciações de 3 ou 7 dias que hoje se verificam não obedecem à tradição, não constituindo tempo suficiente para a devida preparação do iniciado, excepto tratando-se de ogan ou ekeji (equede).
(2) exceptuando nos casos de ogan e ekeji, a não observação desse princípio, isto é, a iniciação sem raspagem dos cabelos constitui uma desvirtuação da tradição, uma quebra de um princípio elementar da religião Candomblé.
(3) pode suceder que a pessoa seja autorizada a abrir terreiro numa fase anterior aos 7 anos (odunjé) por vontade dos Orixás, mas deverá cumprir os seus deveres religiosos normais. Note-se que esse facto tem caráter de exceção, não devendo ser prática corrente como começa a acontecer hoje em dia.