Os Orixás – Àwọn Òrìṣà

A essência dos Orixás diz respeito aos fundamentos do culto e aos iniciados na religião. No entanto, graças à emergência da literatura especializada e da existência de sites e blogs dedicados ao Candomblé, hoje existe muita informação sobre os Orixás disponível a todos. Por isso, apresentamos de forma muito sucinta os principais atributos das divindades do Candomblé.

ÈṢÙ / Exú, na grafia corrente, é o Orixá-mensageiro, o grande interlocutor entre o àiyé (a terra) e o Ọrún, entre o plano terreno e o universo sagrados dos Òrìṣà. Na tradição religiosa Yorùbá contemporânea, Exú é considerado um Orixá poderoso e influente entre os demais Orixás e na vida quotidiana dos humanos, podendo ser gerador de acordos ou de discórdias. Por essa razão, os yorùbá lembram-se primeiro de Exú em tudo o que fazem, não só por reverência mas para que ele não atrapalhe o desenrolar dos acontecimentos. Exú é o senhor de todos os caminhos, de todas as direcções, por isso diz-se que habita nas encruzilhadas, símbolo de todos os caminhos possíveis. Por seu carácter conflituoso, exibicionista e profundamente erótico, os primeiros missionários no território Yorùbá consideraram-no o Diabo e aqueles que lhe faziam oferendas adoradores diabólicos. Mas Exú não tem nada a ver com o demónio judaico-cristão. Exú é a própria essência da vida, ele é a fecundação da vida. Exú simboliza o caos inicial que procede a criação.


ÒGÚNOgum é, antes de mais, o Tòbì Ode, o primogénito da família dos caçadores. Ògún encerra a ligação entre caça, agricultura e guerra, uma vez que é o patrono do ferro, elemento vital nas três actividades. Por essa razão, Ogum é o patrono da metalurgia e da tecnologia.

Ogum é também chamado de àsiwàju, no sentido em que é o pioneiro, o desbravador de todos os caminhos do àiyé. Diz o mito que como Ogum era um amante fervoroso da luta e da caça, certo dia subiu uma montanha (orioke) onde havia uma floresta e uma pedreira e por lá ficou vários meses, findos os quais voltou a Ilé-Ife. Diz-se que o tempo que por lá passou, isolado do contato humano e convivendo com os animais, o tornaram num homem bruto, rude. Ele vinha todo sujo, coberto de sangue e vestindo a folha de mariô, o dendezeiro. A cena é eternizada na frase:

Ojo Ògún nti orioke nbo,
Aso ina lo mu bora
Ewu eje lo wo sorún.

(no dia em que Ògún desceu a montanha,
vestia uma roupa de fogo,
e estava coberto de sangue)


ỌDẸ Ọ̀ṢỌ́Ọ̀SÌOxóssi é o deus da caça e dos animais, apenas permitindo que se mate o que seja para comer. Oxóssi é também um Orixá (Òrìṣà) pioneiro, uma vez que sendo um excelente localizador de rastos e notável orientador de expedições, Oxóssi abre os caminhos para a fundação de cidades e vilas. Ele representa a providência da família, é o Pai que não deixa que falte comida na mesa dos seus filhos, porque a caça era a alimentação e sustentabilidade do passado. Nesse sentido, Oxóssi é um provedor de emprego, o caminho para a sustentabilidade dos sujeitos e suas famílias. Ao mesmo tempo, Oxóssi é um guardião de casas e aldeias. Antigamente os Odé (Ọdẹ), os caçadores, eram os únicos a possuir armamento nas aldeias yorùbá, pelo que assumiam o papel de Oxó (Òṣó), guarda-nocturno. É por isso que é provável que Ọ̀ṣọ́ọ̀sì derive de Òṣówusì, termo Yorùbá para “o guarda nocturno é popular”. Oxóssi é um Orixá que habita as matas e florestas densas, entre os pássaros e o sussuro das árvores, mas que nunca virou as costas à procura de alimento para a sua aldeia. Um homem comum que por seus feitos na procura de aprovisionamento para os seus vizinhos se tornou Orixá. Oxóssi realiza as suas tarefas de forma serena mas determinada, sendo menos impulsivo e obstinado que Ògún, findas as quais regressa ao sossego da floresta onde muitas vezes se encontra com Ossaîn.


Ọ̀SÒNYÍN / Ossain é um Orixá profundamente importante no Candomblé, uma vez que é patrono das folhas, dos seus segredos e preparos, sendo o Orixá da ecologia e da preservação natural. Habita as florestas acompanhado de Aroni. A recolha de folhas implica o pagamento devido a Ossain. Ossain usa uma cabaça chamada Igbá-Osonyin. Fuma e bebe mel e pinga. Ossain também é um Orixá de poderes misteriosos e profundos, razão pela qual é representado por um pássaro chamado que reside na sua cabaça, cujas proprietárias máximas são as Iyami. Ele carrega também sete lanças com um pássaro em cima da haste, o qual é seu mensageiro e voa para trazer-lhe notícias. Ele é o Orixá do axé verde, razão pela qual é fundamental no rito do Candomblé.


ỌBALÚWÀIYÉ / Também chamado de Omolu e Sakpata-Azunsun, Obaluaiê é um Orixá de tremenda importância e tradição, em particular nos territórios Yorùbá e Fon, sendo o Senhor da Terra, da terra firme, quente, do vulcão em erupção e das doenças contagiosas. Ele está ligado ao calor do sol, recebendo, por isso, o cognome de Bàbá Ìgboná.

Segundo a lenda, teria nascido com o corpo coberto de chagas o que levaria a que a sua mãe (Nàná Bùrúnkù) o abandonasse na beira da praia. Nesse contratempo, um caranguejo provocou graves ferimentos na sua pele. Iemanjá encontrou-o e criou-o, e com folhas de bananeira curou as suas feridas e pústulas e transformou-o num grande guerreiro e hábil caçador (Jagun), que se cobria com palha-da-costa (ikó) não porque escondia as marcas de sua doença, como muitos pensam, mas porque se tornou um ser de brilho tão intenso quanto o próprio sol. Debaixo da palha-da-costa, Obaluaiê guarda os segredos da morte e do renascimento, que só podem ser compartilhados entre o iniciados. A relação de Omolú com a morte deriva do facto de ele ser a própria terra, que proporciona os mecanismos indispensáveis para a manutenção da vida.


ÒṢÙMÀRÈ / O grande Senhor do arco-íris. Ele é o Orixá de todos os movimentos, da permanente actividade, da circulação do àiyé. É a dinâmica da existência, porque ele é a unidade do planeta, é a chuva que alimenta a terra, a sucessão do dia à noite, das estações do ano. Ele vem do òrún visitar-nos através do arco-íris, simbologia da sua ligação entre os dois planos da existência. Oxumaré é um Orixá de forte importância entre os Ewe-Fon, onde é conhecidor por Dan. Dahomé, aliás, vem de Dan ho mé, “a morada da cobra”, animal que simboliza Oxumarê. Na tradição de Ifè é chamado de Ajé Sàlugá, aquele que proporciona a riqueza aos homens. Há quem considere Oxumarê um Orixá meta-meta, isto é, metade homem metade mulher, o que simboliza a sua própria dualidade e unicidade da perpetuação da vida. Contudo, Ele é masculino, apesar de simbolizar essa união dos opostos e a transformação permanente. Oxumarê é a cobra que morde a própria cauda criando a unidade permanente. É por isso que ele é o senhor elástico, aquele que se estica, é a aliança entre o àiyé e o òrún.


ÌROKÒIrocô é a árvore-Orixá, grande divindade Yorùbá e Fon, tendo sido o primeiro elemento vivo existente no àiyé e cujas raízes tocam o òrún. Ainda hoje a árvore Chlorophora excelsa é conhecida por Irocô. No Brasil, todavia, Ele é associado à gameleira branca. Irocô é conhecido nos candomblés de Angola-Congo por Tempo, Zaratembo ou Kitembô e nos candomblés de tradição Jeje por Lokô, sendo nesta última que encontra a maior reverência. Certos mitos relatam Irocô como cajado de Oduduwa, embora seja certo que era das árvores-irokos que se fazem em África os opaxorôs (ópàṣóró) de Oxalufã (Òṣàlúfọn). Outro mito de Irocô diz que foi a única árvore que não morreu aquando de uma terrível seca que assolou o planeta, por causa de uma briga entre o céu e a terra, uma vez que as raízes de Irocô estão profundamente enterradas na terra mas ao mesmo tempo os seus galhos e folhas tocam os céus.


NÀNÁ BURUNKUOrixá do portal da morte, da origem das águas (lamas), o seu culto é anterior à Idade do Ferro, sendo por isso uma das mais velhas divindades africanas, cujo culto tem forte expressão nos territórios Gbe. Senhora das doenças cancerígenas, Nanã Burunku é um Orixá de poder imenso, sendo chamada de Ìyánlá, grande mãe. É recorrente em África as pessoas fazer dojubàlé, prostrarem-se, quando ouvem o seu nome. É protetora dos idosos e dos efermos, e é originária de Dasa-Zoumé, onde existe o seu culto e sacerdote. O seu culto atinge um vasto território, quase sem igual, indo indo a leste além do Níger até á região Tapa, a oeste além do rio Volta, até nordeste para além dos Ashanti, na região guang. Entre alguns povos Fon ela é considerada uma divindade hermafrodita, anterior a Mawu e Lissá, aos quais teria dado origem em associação com a “serpente do Universo” Dan Aido Hwedo. Para os ewes e minas, ela é às vezes vista como um vodun masculino (Nana Densu), esposo da grande mãe das águas Mami Wata. Nanã sintetiza em si morte, fecundidade e riqueza. Nascimento, meio e fim. Nanã domina o desconhecido maior, a morte, origem de todos os sentimentos religiosos.


YÈWÁEwá é a divindade do rio e lagoa do mesmo nome, em Egbado, em Ogun State. O seu nome significa “mãozinha bela” é uma divindade de uma beleza única, sendo ora irmã ora esposa de Oxumarê, dependendo da tradição. Representa a virgindade, o inexplorado, sendo, também, a dona da visão. Ela é a serpente branca, entre os Fon. É uma divindade poderosa, aparecendo associada ao pôr-do-sol, em particular a faixa rosa do entardecer, e ao arco-íris através da cor branca.


YÈMỌNJÁIemanjá é o Orixá mais popular do universo religioso afro-brasileiro. O seu nome deriva da expressão “Yèyé ọmọn ẹjá”, “mãezinha cujos filhos são peixes”. Ela é a senhora das águas, fontes de vida, do parto, do lar e da família, a mãe zelosa e austera. Iemanjá é uma divindade da nação Ẹgbá, uma nação iorubá (Yorùbá) localizada entre Ifé e Ibadan, onde fica o rio Yèmọnjá, o que significa que Iemanjá originalmente não era uma divindade dos mares, mas do rio. As guerras que avassalaram o país Iorubá, obrigaram os negros de Egbá a migrarem para oeste, para Abeokutá, no início do século XIX, e fixaram-se junto ao rio Ògùn. O templo de Iemanjá foi edificado em Ibará, Abeokutá. Os devotos a Iemanjá deslocam-se todos os anos ao rio Lakaxa para buscar água que transportam numa procissão marcada pelo toque de tambores (ilú) e o transporte de estátutas de madeira (ère). No final, o cortejo vai saudar as figuras importantes, entre elas Olúbàrà, rei de Ibará.


Ọ̀ṢUN / Oxum é um dos Orixás mais populares do Candomblé. Aliás, toda a gente conhece a canção “nessa cidade todo o mundo é de Oxum…”. Oxum é a divindade dos rios, das águas claras e cristalinas, das cachoeiras, do amor e da fertilidade. Oxum é dotada de uma enorme beleza física, de uma sensualidade e de um brilho magníficos. Oxum é a beleza feminina passiva, a candura, é a gravidez e a mestruação, as águas que rebentam anunciando o parto, a vida feminina na sua pureza e serenidade. A sua beleza não está independente da sua vaidade. Diz-se que Oxum venceu uma guerra sem sair do espelho, tanto tempo ficou o seu inimigo à espera que ela se produzisse. Oxum é símbolo da sensibilidade e muitas vezes derrama lágrimas ao incorporar, característica que se transfere a seus filhos identificados por chorões.

Oxum habita o rio com o seu nome, em Ijexá, local onde todos os anos centenas de mulheres recorrem para procurarem a fertilidade de que Oxum é portadora, graças à sua ligação a Ìyámi. Oxum é chamada de Ìyálóòde, título conferido às mais altas e digníssimas mulheres Yorùbá. Os seus múltiplos nomes e fundamentos derivam das áreas do rio Oxum. As mais velhas ou mais antigas são encontradas nos locais mais profundos (Ibu), enquanto as mais jovens e guerreiras respondem pelos locais mais rasos.


LÒGÚNEDE /Ològúnede ou Lògún-Ede é um Orixá do fundamento de Ijexá filho de Oxum e Oxóssi ou Oxum e Erinlé, conforme a tradição, e é um dos mais belos Orixás da tradição Yorùbá, apesar de ser dos mais jovens. É simultaneamente caçador e pescador, fundindo os Axés da mata e das águas, dos seus pais, representando a tríade pai-mãe-filho, universal às religiões. É, algumas vezes, representado como endrógeno, a pureza ausente de sexo, embora essa característica não seja global, uma vez que a sexualidade não constitui tabu (ewo) para os Yorùbá. Também se apelida Lògúnede de bissexual interpretando de forma errada a simbologia de seis meses masculino seis meses feminino que se refere à estadia nas matas e nas águas. Diz-se que com Yèwá formariam o casal perfeito, a beleza pura e perfeita.

Logunedé, o caçador e pescador vaidoso, mora em Iléṣá, uma rica terra Yorùbá, onde não é o filho de Erinlé/Oxóssi, mas antes o grande caçador e rei do seu povo.


OKÒ / Okô faz parte da família de Orixás agricultores e caçadores, cujo culto não se estabeleceu no Brasil, em virtude de ser uma divindade que não possui os seus iniciados. Faz parte do círculo dos Orixás que vestem branco e usa uma flauta feita de osso, chibata de couro e cajado de madeira. Okô é a divindade das colheitas do inhame novo e da fertilidade da terra. Na transferência dos escravos para o Brasil, Okó perdeu o seu papel, sendo substituído por Òfún e mais tarde por Oxóssi, como divindade da caça, e Ogum como patrono da agricultura. O seu ópàṣóró (cajado) é feito de madeira, relembrando a sua ligação às árvores, e a flauta de madeira simboliza a sexualidade e a fertilidade que também são seu domínio. Por trajar branco e usar cajado é confundido com Oxalufã. Apesar do seu culto se ter perdido no Brasil é um Orixá de abundância.


OTIN / A família dos Orixás caçadores é extensa, resultante da vastidão dos territórios Yorùbá e Ewe-Fon e da prática da caça como forma primário de sustento da família e da comunidade. Uma vez que as mulheres naquelas culturas possuíam forte independência — existindo inclusive exército feminino temível no Danxomé — a prática da caça por mulheres não deveria ser uma raridade, razão do culto de Otin. Nesse aspeto, como caçadora, Otin pode ser confundida como Oxum Karé, caminho/qualidade de Oxum ligada à caça, o que reforça o argumento do papel feminino como caçadoras. Ao mesmo tempo, sendo uma divindade feminina, Otin possui ligações às águas fontes de vida e de fertilidade, e assim à agricultura.


OBA / Obá, divindade do rio com o seu nome, é uma importante divindade na região da grande Oyó. Trata-se de uma divindade feminina de face guerreira, sendo muitas vezes chamada de amazona. Ela usa escudo, espada e ofá, o arco-e-flecha, para caçar. O seu culto era realizado exclusivamente por mulheres, numa sociedade secreta yorùbá chamada de Elee’ko, razão pela qual não é aconselhável iniciar homens para esta divindade, a não ser que a mesma dê permissão e tais homens possuam forte personalidade feminina. Ela é uma divindade protetora das mulheres independentes, guerreiras e caçadoras, mulheres que conseguem por si mesmas o sustento das suas famílias, razão pela razão ela é Ìyá-Osi, mãe do lado esquerdo, o lado feminino.


OYÁ-YÀSÁN / No universo das divindade femininas Oyá é das mais populares. Oyá ou Iasã (Iansã) é a divindade do rio Oyá, o Níger, na Nigéria. O seu nome Yàsán, deriva de “ìyá mesan”, “mãe de nove”. Trata-se de uma divindade dos ventos, tempestades, raios e da morte. É ela que encaminha os espíritos na sua passagem e comanda o Axêxê, o ritual fúnebre. Diz-se que aprendeu com Xangô o controlo do fogo e que por isso solta-o da boca quando está em batalha. Oyá advém de “odo ya”, isto é, “rio que rasga” o rio que tem múltiplos afluentes rasgando as cidades e vilas. Ela tem em si os elementos contraditórios – fogo e água (omi e iná), motivo pelo qual se representa expressivamente numa tempestade: a chuva intensa e o raio queimando tudo.

Yàsán é uma guerreira nata que rejeita o papel feminino tradicional, é fogosa e mostra o seu amor e a sua raiva nas mesmas proporções. Oyá é a mulher que sai em busca do sustento da família. Algumas passagens da mitologia de Oyá relacionam-na com antigos cultos agrários africanos ligados à fecundidade, e é por isso que a menção aos chifres de búfalo, símbolos de virilidade, surgem sempre nas suas histórias. Iansã é a única que pode segurar os chifres de um búfalo, pois essa mulher cheia de encantos foi capaz de transforma-se em búfalo e tornar-se mulher da guerra e da caça.


ṢÀNGÓ / Xangô é um dos Orixás mais importantes do Candomblé, sendo a cumeeira de alguns dos mais antigos terreiros do Brasil. Xangô é a representação máximo do Imperador e dos cultos régios tradicionais africanos, congregando em si o arquétipo dos reis yorùbá, sendo, portanto, um Deus do Poder. Divindade do fogo, trovão e da pedreira, Xangô teria sido o IV Alafin (monarca) de Oyó e o mais poderoso, temível e violento de todos os imperadores yorùbá. O seu culto possui todos os contornos régios, estando profundamente ligado à dinastia de Oyó. Xangô usa o machado de duas lâminas (Oxê), arma poderosa em batalha, e que representa a possibilidade de Xangô cortar para os dois lados, isto é, ser justo em todas as direções, e o xere, a cabaça com um cabo com grãos ou areia no interior, produzindo o som da chuva, que nos recorda as antigas ligações dos monarcas divinos com os elementos naturais, sendo a chuva fertilizadora da terra e anunciada pelo trovão de Sua Majestade.


ÀYRÁ / Airá é uma das divindades mais complexas do Candomblé, ao representar os múltiplos encontros entre culturas africanas da região do Golfo do Benim. Airá teria chegado à Bahia, no século XVIII (18) como uma divindade feminina originária de Savé, chamada de Airá Intilé, e que teria sido, depois do culto de Ode Oni Popo instalado por Iyá Adetá, o culto inicial da comunidade da Barroquinha, primórdios da Casa Branca, Alaketu e Gantois. Por ser considerado o dono do fogo, naquela região, sendo um Orixá extremamente quente, o seu culto foi associado com o de Xangô, razão pela qual muitas casas de Candomblé o cultuam como caminho/qualidade de Xangô, uma versão funfun do rei de Oyó. Airá faz parte do fundamento de Oxalá.


JAGUN / Tal como Airá, Jagun é um Orixá de tradição complexa, sendo geralmente cultuado como caminho funfun e guerreiro de Omolú, companheiro inseparável de Oxoguiã, o grande senhor da guerra. O seu culto independente de Omolú é realizado na nação Ekiti Efon. Orixá caçador e guerreiro, é o dono da lança que usa para as duas tarefas, sendo um poderoso e temível Orixá que nas batalhas espalhava epidemias.


ÌBEJÌ / Ibeji é um Orixá complexo devido às transformações do seu culto. Originalmente Ibeji representa a fertilidade extrema expressa no nascimento de gémeos. Se entre alguns povos africanos o nascimento de gémeos é um mau presságio, pois significa que a fertilidade faltará noutra mulher ou momento, entre os Yorùbá representa a riqueza máxima da fertilidade. As crianças no território Yorùbá são consideradas a maior riqueza, pois são a certeza da continuidade.

Orixá-criança dos Yorùbá e recebe o nome de Hoho entre os Fon. Trata-se de uma divindade dupla, dois gémeos, masculino e feminino. Taiwo para o primeiro gémeo e Kehinde para o segundo. Nesse sentido, Ibeji distancia-se dos santos Cosme e Damião com quem foram sincretizados. Ibeji é o princípio da dualidade, mas uma dualidade de início, início de nascentes, germinar de plantas, etc. É a brincadeira e a alegria. Ibeji é tudo o que existe de bom, belo e puro. Mas não deve ser confundido com o erê, espírito de crianças desencarnadas que representam arquétipos ligados aos Orixás.

Rezam as lendas (ìtan) que Ìbejì são filhos de Oyá e que foram abandonados por esta nas águas. Oxum salvou-os e criou-os, passando a estar ligados ao culto de Oxum. Entre as divindades africanas, Ibeji é o que indica a contradição, os opostos que caminham juntos a dualidade de todo o ser humano, Ibeji mostra que todas as coisas, em todas as circunstâncias, tem dois lados e que a justiça só pode ser feita se as duas medidas forem pesadas, se os dois lados forem ouvidos. Nesse sentido, Ibeji possui afinidades com Exú, Orixá das múltiplas possibilidades, e Xangô, patrono da justiça. O poder de Ibeji jamais pode ser negligenciado, pois o que um Orixá faz Ibeji pode desfazer, mas o que um Ibeji faz nenhum outro Orixá desfaz. E mais: eles se consideram os donos da verdade.


ODUDUWA / Odudua partilha com Airá o problema do género, em particular em resultado da reafricanização do Candomblé. Isto porque, Odudua é a Terra-Mãe, o Útero da existência, a cabaça da vida ou a metade inferior da cabaça, receptáculo, a parte feminina, cabendo a Obatalá-Oxalá a metade superior, masculina. Odudua seria a divindade primordial da região de Ifé, associada a Yemowo, sendo esposa de Obatala, o senhor dos vizinhos Ibo. Quando Ifé tomada, presumivelmente por guerreiros das savanas mais a norte, Odudua é assimilada pelos povos conquistadores e associada ao seu herói, presumivelmente chamado Lamurudu, adquirindo uma identidade masculina. Entre os yorùbá, Odudua é o pai da nacionalidade, o herói civilizacional, o Pai Fundador dos yorùbá e de várias dinastias seguintes. Como a história do Candomblé é marcada por diferentes levas de escravos de diferentes origens étnicas, na maioria dos terreiros mais antigos Odudua permanece como Orixá feminino, ao passo que nos terreiros reafricanizados, que sofreram influência da cultura yorùbá contemporânea, Odudua é cultuado como masculino.


ÒṢÒGIYÁN / Oxaguiã é a face jovem de Oxalá ou o filho de Oxalufã, consoante a tradição, sendo, ainda, parte da família dos Orixás funfun. Ele é o senhor da guerra, em particular das revoluções, pois Oxaguiã é a busca pela perfeição, a insatisfação de querer sempre fazer melhor. Por essa razão Ele é o Arquiteto do Universo. Oxaguiã é representado pelo número 8, o número perfeito que nunca acaba e jamais começa, que é eterno. Por isso Oxaguiã não envelhece, é o guerreiro jovem eterno, sempre inconstante e determinado. Oxaguiã é, também, um Orixá ligado à família e ao sustento, por ser o dono dos inhames, o seu alimento preferido, e do pilão, usado para pisar o inhame para ser preparado como alimento. Ele é o dono do atori, a longa vara branca que é utilizada no culto Egun.


ÒṢÀLÚFỌN / Oxalufã ou Orixanlá, o Grande Orixá, ou ainda Obatalá, o Senhor do Pano Branco, é o Pai de Todos os Orixás. O Senhor da criação, do elemento ar, o patrono da sabedoria, o Velho. Oxalufã contém, originalmente, um elemento feminino, pois sendo a criação precisa contém a dualidade dos géneros, expressa no abebê, o leque, e nas águas, razão pela qual é uma divindade de fertilidade.

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