SAUDAMOS ÈṢÙ SENHOR DA COMUNICAÇÃO.

  1. Roger Bastide, eminente sociólogo francês que estudou as religiões afro-brasileiras, defendia que o processo iniciático no Candomblé permita adquirir uma identidade africana. Por via da iniciação, o sujeito tornava-se africano, adquirindo um nome iniciático que representa, simultaneamente, uma identidade africana ritual e mística. Através da iniciação, a pessoa é aceite na comunidade-terreiro e torna-se sujeito religioso, tendo em conta que o Candomblé é uma religião iniciática, processo que atua como rito de transição do estado de abian (aquele que tem ou está no caminho) para iniciado, enquanto membro integrante da comunidade física do terreiro e da comunidade imaginada do Candomblé como um todo.
  2. O processo iniciático representa, desde sempre (ab initio), que o iniciado aceite as regras comunitárias que identificam a vivência religiosa do Candomblé, reconhecendo a prevalência de um sentido africano (possível)em diferentes matérias distinto da sociedade onde o Candomblé se inseria. Esse processo de contraste foi ficando cada vez mais evidente, com a mutação da sociedade em direção a formas mais liberais e plurais. O modelo patriarcal, hierárquico e classista da sociedade brasileira – no qual o Candomblé se reconhecia, enquanto religião hierárquica, hermética e estratificada –, foi dando lugar a uma sociedade plural, de mobilidade social, de novas formas sociais que permitiram a liberdade de identificação. O Candomblé passou a dialogar com a sociedade plural, capitalista, diversificada, tornando-se um espaço de convergências ideológicas e de diversidade sexual e identitária, ao mesmo tempo que se tornou, com tudo isso, espaço de luta simbólica: da pureza africana, do movimento negro, da diversidade racial, da diversidade sexual, da diversidade de género. O Candomblé passou a estar, com efeito, numa encruzilhada entre «tradição» e «modernidade», congregando ideias contraditórias. Exemplo disso é o debate entre a ideia de espaço de acolhimento que não faz diferença racial, económica, sexual, de género, no tratamento, e a invocação de um espaço de identidade africana invadido pela «branquitude» e onde a identidade sexual e de género produz ruturas profundas com os padrões do Candomblé. Como uma religião que acolhe a diferença mantém em si a demarcação biológica homem/mulher nos cargos religiosos?
  3. Importa reconhecer que a noção do Candomblé como religião de acolhimento a todos sem distinção é um produto histórico resultante da sua condição de marginalidade e de minoria. Patrimonialmente, o Candomblé é uma religião conservadora, no sentido de que busca uma continuidade com uma memória africana, com um conjunto de padrões e valores definidos e cogentes, dos quais não pode abrir mão sem com isso representar uma reinvenção. Nada obsta que as lideranças religiosas reconheçam que – como dizia Mãe Stella do Opô Afonjá –, o seu “tempo é agora”, no sentido de reconhecer a necessidade de o Candomblé se adaptar e conviver com a pluralidade, com a Democracia, com os direitos fundamentais. É, aliás, um imperativo de qualquer instituição social que pretenda sobreviver. Porém, a sobrevivência do Candomblé caminha sobre fino gelo, entre a necessidade de adaptação aos novos tempos e a urgência de segurar a tradição como legado litúrgico que permite identificar o Candomblé como ele é. O Candomblé para ser Candomblé precisa ter recolhimento iniciático, “curas”, raspagem das cabeças, sacríficos rituais, “obrigações” como etapas de passagens até à senioridade, demarcação sacerdotal. Princípios que cada vez mais são dificilmente compagináveis com as sociedades hodiernas. Mas para que o Candomblé sobreviva precisa manter esse legado. Comporta diferente significado a supressão do sincretismo afro-católico e a aceitação do posto de Ogan para mulher. O atabaque será sempre lugar masculino (em termos biológicos de homem), porque o atabaque tem uma condição feminina (vasilha) que necessita da fertilização masculina. O pano da costa tem um sentido feminino, porque protege o útero como símbolo de vida e fertilidade. Trata-se de matérias, sabemos, de enorme debate, particularmente em resultado da penetração da pluralidade nos terreiros. A possibilidade do Candomblé se reformar, aceitando mulher como ogan, homem como ekeji, e inúmeras inovações que vão sendo reclamadas em virtude da presença da pluralidade e da sociedade hodierna (como a exclusão da raspagem da cabeça e redução do tempo de clausura) nos terreiros, merece a mais cuidada atenção. A CPCY reconhece o direito de cada terreiro determinar os modos rituais e padrões éticos, estéticos e outros. Todavia, assumimos como conjunto de princípios basilares do Candomblé aqueles legados pelos ancestrais, que embora adaptados ao Brasil, comportam uma memória possível africana que não aceita as reformas propostas oriundas da sociedade hodierna. Pelo significado de fertilização, o posto de ogan será, sempre, masculino-homem, o processo iniciático, pelo significado de gestação espiritual e de renascimento, comportará a raspagem de cabelos e a clausura indicada pela tradição e pelo sistema oracular.
  4. Não se nega a diversidade de género. Pelo contrário, os Òrìṣà ensinam que a vida é diversa, como as cores do arco-íris (Òṣùmàrè). O transe ritual reforça esta ideia, através da pluralidade de papéis que o ẹlẹ́gùn é chamado a desempenhar – ele/ela é homem ou mulher biologicamente; ele/ela é masculino ou feminino ou a-género, conforme a identidade do Òrìṣà, no ato de no transe representar a divindade e não ela/ela mesmo/a enquanto sujeito, sendo apenas o instrumento; é feminino na condição de vasilha da divindade. Esta complexa diversidade de papéis de género não se exporta a funções claramente demarcadas. Independentemente da sua orientação sexual e identidade de género, a èkéjì é feminina, razão pela qual usa saia. Inversamente o mesmo se aplica ao ọ̀gá (ogan).

O Princípio Coletivo Contestado

  1. Verificamos que o princípio coletivo do Candomblé – que o termo zulu e xhosa Ubuntu tão bem materializa – vem sendo contestado pelo avanço dessa mesma sociedade que na sua feição capitalista negativa tornou o individualismo humanista no individualismo como princípio, meio e fim do ser humano. A pessoa humana tornou-se autocentrada, egoísta, deixando de pensar na comunidade como o fim do ser humano. O pacto que nos une como coletividade foi desaparecendo. Esse fenómeno é problemático no seio do Candomblé. Lembremos o princípio do ṣìré: a reunião em louvor dos Òrìṣà, a reunião dos Òrìṣà em comunhão com o Humano. Tenhamos presente o provérbio africano: “É preciso uma aldeia inteira para educar uma criança”. No Candomblé cada pessoa é peça da engrenagem coletiva. O rodante dá materialidade, vida, corporeidade ao som e à voz que vêm dos atabaques. Cada iniciado é educado pela aldeia dos mais velhos.
  2. A partir do momento em que o sujeito se torna autocentrado ele deixa de se adequar ao Candomblé, porque a “família-de-santo” desaparece e passa a imperar a agenda pessoal, a espiritualidade individualizada própria da Nova Era. O caminho dos Òrìṣà não é um caminho solitário, mas coletivo. O Caminho dos Òrìṣà é feito sobre solo (simbólico) africano da comunidade que permitirá à pessoa – independentemente da sua situação económica, origem étnica, racial, sexual ou de género – religar-se à primordialidade africana, à sua essência espiritual, ao seu doble existente no ọ̀rún.
  3. Por tais razões, o Candomblé não é reformável, não é ocidentalizável. O Candomblé não é uma experiência transacionável, adquirível. A experiência do Candomblé não se compra como um voucher espiritual. É um trajeto longo, difícil, de reencontro com o coletivo, da Natureza, de mergulho cultural numa outra forma de ver o cosmos, a vida, a comunidade, o “eu”, que não é compaginável com os valores da sociedade fugaz, dos bens de consumo, da prestação de serviços.
  4. O desafio do Candomblé não é adequar o corpo ao transe, não é o de aprender a cantar, dançar, tocar, e as várias fórmulas ou gestos rituais, mas o de adequar a mente a um novo mundo onde conta o “nós” mais do que o “eu”, onde cargo não se compra, onde compromisso não é um contrato.

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