• A Religião

    Baseada na memória dos ancestrais e da identidade cultural-histórico-religiosa de povos da Costa dos Escravos, o Candomblé é uma religião expressa na performance ritual, através da liturgia celebrativa, com cânticos que invocam a mitologia das divindades-Orixás, danças que recriam essa mitologia, atualizando no presente a história dos deuses fundadores, e música sagrada percutida nos tambores rituais, os ilú, objetos sacralizados que dialogam com a dança e o cântico, criando uma narrativa por meio de gestos e sons.

    © Carybé

    Com o comércio de escravos de África para o Brasil, em particular com o Ciclo do Benim, última etapa deste comércio, entre 1770 e 1850, é aportado à Bahia um número elevado de escravos oriundos da região do Golfo do Benim, dos impérios Òyó-Yorùbá e Danxomé (Daomé). Através da organização de irmandades religiosas católicas, tuteladas pelo poder colonial e mais tarde pela coroa brasileira, os escravos eram divididos segundo as suas referências étnicas (muitas vezes referências amplas, chamadas de metaetnicidades), promovendo a recriação das confrarias Vodun e Òrìsà (Orixá). Nesse quadro, surgem os primeiros cultos organizados a Òsóòsì (Oxóssi) e a Sàngó (Xangô), e mais tarde a outras divindades, dando origem aos primeiros terreiros, como o Bogun entre os jeje, o Candomblé da Barroquinha (que viria a dividir-se entre a Casa Branca do Engenho Velho e o Gantois) e o Alaketu, um terreiro de feição eminentemente familiar.


    Além da intrincada história religiosa da formação dos primeiros terreiros e confrarias religiosas, o Candomblé é, como dito, uma religião de memória, que pretende preservar as formas culturais e civis africanas que se expressam de forma religiosa, que exalta a ligação entre o sujeito e a Natureza, entre o iniciado (porque o Candomblé é uma religião iniciática) e a divindade à qual é consagrado, e o iniciado e a comunidade, uma vez que o Candomblé é uma religião comunitária, expressa no sentido de família religiosa, onde figura uma dinâmica régia, profundamente hierárquica. É, também, uma religião de transe e adivinhação, de encontro do sujeito com ele próprio. Ao contrário de outras religiões que preconizam a salvação e o caminho individual do sujeito, o Candomblé oferece um caminho de encontro com o “eu” interior através de uma experiência coletiva, de inscrição numa realidade complexa de comunidade.

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